quarta-feira, 14 de abril de 2010

Correio Popular de Campinas


Publicada em 14/4/2010


Ao reitor da Unicamp




Magnífico Reitor, dr. Fernando Costa. Com o respeito devido à sua autoridade, venho relatar um problema que envolve a ordem acadêmica. Sabe bem o senhor, pessoa ligada à vida do ser humano, o quanto o trânsito é violento em nosso país. A morte em nossas ruas é corriqueira, pois motoristas usam veículos como instrumento letífero sem discriminar vítimas. São ali assassinadas crianças, velhos e jovens de todas as condições sociais. Em Campinas, a situação tornou-se dramática com os acidentes causados por caminhões, carros ou motocicletas.

Estudioso dos valores, noto que existem duas formas éticas essenciais: a dirigida desde a infância para o respeito do corpo e da alma, próprios ou alheios, e a que se move em sentido contrário. O péssimo da ética é que, boa ou má, ela se torna um automatismo. Quem age bem, o faz sem muitas reflexões. O mesmo ocorre com os que agem da maneira oposta. Em nossas ruas, os motoristas agem de maneira automática. Se o sinal está vermelho, ou pedestres atravessam a faixa, o “certo” é avançar ameaçando o transeunte. Afinal, quem manobra um veículo é “superior” ao mero usuário sem carro da via pública. Em consonância, morre mais gente em nossas estradas do que em várias guerras.

Não existem lugares sagrados para os motoristas dominados pelo automatismo ético. Eles voam ao redor de templos, ginásios esportivos, cinemas, lugares onde a marcha lenta seria a correta. Quando transitam na Unicamp, são mantidos os seus hábitos. Noto esforços da Universidade para disciplinar tais práticas. Logo na entrada do nosso território lemos um cartaz, simples e direto: “Motorista, na Unicamp o pedestre tem sempre a preferência”. Outras iniciativas louváveis existem, assumidas pelas autoridades acadêmicas, funcionários e professores.

Confiante na diretiva que ordena prioridade ao pedestre, saí de minha aula no IFCH, na última sexta-feira, rumo ao estacionamento. No instante em que pisei a rua que separa o IFCH do IEL, vi um caminhão sem carga (os mais perigosos, pois os motoristas consideram que, mais leve, podem ser dirigidos como veículos de passeio) seguir em minha direção usando alta velocidade. Do meio da rua fiz-lhe sinal para que diminuísse a marcha. Ele acelerou ainda mais. Quase fui atropelado e fiquei sobre o meio fio, vendo o espetáculo de inconsciência. Quando passou por mim, gritei-lhe com indignação: “diminua a velocidade, desgraçado!”. O vocábulo liga-se ao fato de alguém perder a graça, no caso a divina, por optar pela morte. Quem joga aço às toneladas sobre corpos humanos, não pode ter em si a graça celeste. Recebi, como resposta, um sinal obsceno dos mais vulgares, confirmando a desgraça do agente.

Corri o quanto pude atrás do veículo e comecei a anotar o número da placa. O motorista, percebendo o que eu fazia, parou o caminhão na altura da biblioteca. Fui até ele e, em vez de desculpas, ao declinar minha condição de professor recebi um ataque: “se você é professor, sabe que é errado xingar os outros”. Réplica: “se o senhor é motorista consciente, deve respeitar a vida de nossos alunos, professores, funcionários, a velocidade no campus é de 40 km a hora”. Tréplica: “eu estava a 25 por hora”. Evidente falta de verdade, pois ninguém ultrapassa dezenas de metros, em segundos, usando baixa velocidade.

Busquei a segurança da Unicamp. Com os agentes, fiz questão de deixar escrito que interpelei o motorista como “desgraçado”. Se medidas severas não forem tomadas, entre nós, o costume de voar com caminhões ou carros nas ruas da Unicamp breve será um automatismo. Aí, os próximos candidatos a Ayrton Senna às custas da vida alheia ouvirão invectivas mais duras ainda das famílias vitimadas. Mas será tarde para quem foi atropelado no local onde se cultiva a razão. Escrevi esta carta aberta, Magnífico Reitor, porque entendo que o problema não é meu, nem do senhor, mas da comunhão acadêmica. Apelo para a sua autoridade e à de nosso Conselho, para que restrições mais severas e prontas, impostas pela Prefeitura do campus, vigorem contra procedimentos semelhantes. Em nome da vida.