domingo, 14 de fevereiro de 2010

Blog Ariel Palácios, enviado pelo amigo Alvaro Caputo.

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“Pode vir para cá investir. Aqui não vão te desapropriar nem te carregarão as costas com impostos, nem confiscarão teu dinheiro”. Essa promessa, ouvida por 1.500 empresários no V.I.P. Hotel Conrad, na elitista Punta del Este, Uruguai, não foi pronunciada por um expoente do neoliberalismo, mas sim, pelo ex-guerrilheiro tupamaro e floricultor José Mujica, presidente eleito do Uruguai, de esquerda, que tomará posse no dia 1 de março.

O almoço de Mujica com os empresários realizado nesta quarta-feira no Conrad teria sido uma imagem considerada “delirante” há exatamente 40 anos. Na época Mujica vivia na clandestinidade, assaltando bancos para financiar a guerrilha do Movimento Tupamaros, que pretendia tomar o poder para implantar uma sociedade socialista.

No entanto, quatro décadas depois do período em que Mujica se esgueirava pelos esgotos de Montevidéu para fugir das tropas do Exército que o caçavam, o ex-guerrilheiro acena com “segurança das regras do jogo”, elemento que tornou-se escasso na região.

De quebra, a reunião foi em Punta del Este, balneário que há quatro décadas foi alvo da "Operação Verão Quente", um dos diversos ataques da guerrilha tupamara.

Além de empresários uruguaios ali estavam americanos, europeus, brasileiros e um contingente de 400 empresários argentinos, interessados no Uruguai, país que tornou-se um dos pontos mais “previsíveis” da região ao longo dos últimos anos.

mandrake

Mujica afirma que não recorrerá a soluções 'mágicas', tal como o mago Mandrake, que era hábil em criar ilusões com a hipnose. Na ilustração, Mandrake faz uma mocinha levitar. "Mandrake the Magician", a tirinha, foi criada por Lee Falk (autor de 'The Phantom') y Phil Davis en 1934.

MANDRAKE E A GALINHA

“Estamos pedindo que apostem no Uruguai. Não estamos dizendo isso de forma desinteressada. Ao contrário! Estamos profundamente interessados! Não somos o Mandrake...não somos ricos”, ilustrou Mujica, de 74 anos, com sua folclórica ironia.

“Quanto mais aumentam os investimentos, mais aumenta a arrecadação tributária para os grandes investimentos sociais que queremos fazer”. Segundo Mujica, aumentar os impostos sobre a riqueza seria um ato kamikaze: “se fizermos isso, estamos fritos, pois estaríamos matando a galinha dos ovos de ouro”.

A galinha já está colocando ovos há um certo tempo no Uruguai, país onde o investimento externo cresceu de apenas US$ 200 milhões que foram colocados no país no ano 2000 para US$ 2 bilhões que desembarcaram em 2008.

No próprio dia da posse Mujica se reunirá com diretores da Tata Motors, o gigante automotivo da Índia, empresa que quer transformar o Uruguai em uma plataforma para seus produtos em toda a região.

kirchnersorri

Mujica faz questão de diferenciar-se de Kirchner e Chávez, aos quais trata como amigos. Mas, amigos, amigos, negócios à parte

chaveztanque

O discurso de Mujica – que planeja juntar prosperidade econômica com equidade social - foi interpretado como uma diferenciação expressiva de vários de seus colegas da região.
O trecho “Aqui não vão te desapropriar” foi encarado como uma clara alusão ao presidente Hugo Chávez da Venezuela, país onde atualmente investir constitui em um elevado risco.
Outro trecho, “nem te carregarão as costas com impostos” foi entendida como uma referência ao governo do casal Kirchner, na Argentina, que nos últimos anos aplicaram inéditos tributos para as exportações de diversos setores, especialmente o agrícola.

“Senhores empresários, estamos pedindo a vocês que apostem no Uruguai e joguem junto com o Uruguai. Não podemos gerar riquezas com decisões parlamentares. A riqueza é filha do circuito do trabalho”, disse o presidente eleito. Segundo Mujica, eleito no segundo turno em novembro, a característica mais negativa do Uruguai foi “a baixíssima taxa de investimentos”.

O presidente eleito também afirmou que “as regras serão claras e não vamos confiscar seu dinheiro”. Além disso, sustentou que investir no Uruguai “não é uma aposta no escuro”. E de quebra, afirmou que é o país onde “é mais fácil conviver”. E concluiu com um convite: “venham investir...mas também venham viver aqui!”

mujica
Mujica, de todos os presidentes sul-americanos no poder, foi o único selvagemente torturado e preso por longo período de tempo (possui sequelas no organismo decorrentes daquela época). Ele ficou na prisão durante 13 anos seguidos (e outro ano adicional antes dessa fase, mas conseguiu fugir para ficar uns meses em liberdade antes de ser novamente preso). É também o único presidente que participou de uma guerrilha de forma ativa.

Mujica esperava reunir não mais de 500 empresários no almoço. Mas, nas últimas semanas, os pedidos de lugares extras continuaram aparecendo em grande quantidade. Finalmente, 1.500 empresários – interessados em ver Mujica de perto e ouvir seus projetos – compareceram ao repasto no Conrad.

Os mais de 400 empresários argentinos que participavam do evento (quase um terço do total) ovacionaram Mujica no final do discurso.

O empresário italiano Cristiano Ratazzi, presidente da Fiat Argentina, indicou que o Uruguai tem o desejo de “ter uma continuidade institucional e constitucional. Seguir uma linha, ao contrário da Argentina, que a cada dez anos joga fora tudo e vem alguém novo dizendo que tudo o que foi feito atrás foi um desastre, que eles são os criadores de um novo país, e que nessa função podem passar por cima da Constituição e dos contratos”.

O encontro ostentou o nome de “Os empresários no Projeto Nacional: desenvolvimento e redução da pobreza”.

Após o discurso, Mujica recebeu 150 propostas de investimento por parte dos empresários que participaram do almoço.

Além de Mujica, respaldando o evento também estiveram os líderes dos partidos da oposição, entre eles os ex-presidente Julio María Sanguinetti (do Partido Colorado) e Luis Alberto Lacalle (candidato derrotado na eleição contra Mujica, representante do Partido Nacional, também conhecido como “Blanco”).

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Mujica e o presidente Tabaré Vázquez, que lhe passará o poder no dia 1 de março.

PRAGMÁTICO E VEGETARIANO IDEOLÓGICO
“Pragmático, mas sem perder o idealismo”, tal como ele me disse, definindo a si próprio, durante a campanha eleitoral no ano passado, Mujica comandará um governo composto por vários ex-guerrilheiros e socialistas. No entanto, seus sexagenários e septuagenários colegas, boa parte dos quais padeceram 13 anos de cárcere em condições infra-humanas e sob constantes torturas, consideram que é possível conviver com os mercados.

“Vegetariano ideológico” foi outra expressão usada por Mujica para explicar suas atuais posturas.

Nos últimos cinco anos, durante a administração do presidente Tabaré Vázquez, um socialista diet e médico oncologista, o PIB uruguaio cresceu 40% acumulado e a pobreza caiu de 32% para 22%. Os investimentos externos cresceram 68%.

Mujica foi ministro da Agropecuária durante o governo Vázquez. Outro ministro de Vázquez foi o vice de Mujica, o economista Danilo Astori, um socialista “market friendly”.

Além de ambicionar atrair mais os capitais estrangeiros, Mujica pretende manter o sigilo bancário (o grande sex appeal dos bancos do Uruguai) e fazer acordos comerciais com os Estados Unidos e a China.
De olho no gigante asiático, Mujica escolheu seu principal especialista no assunto, o embaixador do Uruguai em Pequim, Luis Almagro, e o transformou em seu chanceler.

vinhetas6flores

vinhetamarca23sCACHORRO E COLEIRA
Mujica recorre aos ditados populares uruguaios e afirma que seu futuro governo manterá o mesmo clima aberto aos investidores e a previsibilidade na política econômica que a administração Vázquez.

“Será o mesmo cachorro com a mesma coleira”, afirma Mujica, citando o provérbio popular do interior do Uruguai, para ilustrar que seu governo continuará com a política econômica de Vázquez.

Para demonstrar que o provérbio será levado à sério, Mujica também ressalta que seu vice, o economista Danilo Astori, é a pessoa que se ocupará das questões econômicas. Astori, em quatro dos cinco anos de governo Vázquez, foi o ministro da Economia. Além disso, Astori definiu a nova equipe econômica, que, em sua grande maioria está composta por moderados economistas de sua extrema confiança.