quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Entrevista não muito antiga, os assuntos, infelizmente, são atuais em demasia.

nº 378
nov/dez 2006
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"Com uma lanterna à cata de saída"


Entrevista com Roberto Romano, o filósofo que diz "coisas que nem todos querem ouvir"

CECÍLIA PRADA e LUIZ PAULO ROUANET


Roberto Romano / Foto: L. P. Rouanet

O filósofo Roberto Romano, professor titular de ética e filosofia política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tem nos últimos anos freqüentado páginas de jornais e de revistas do país – quer como articulista de grande vigor, quer como entrevistado – e marcado com sua personalidade singular, combativa, "sem papas na língua", suas aparições, também freqüentes, na televisão. É que esse ex-dominicano de 59 anos, que durante a ditadura militar foi perseguido e sofreu um ano de cárcere, ao deixar o convento optou por uma liberdade de pensamento que o desvincula de ideologias e partidarismos, e o faz dono de uma profunda racionalidade crítica – expressa sempre, porém, em termos fluentes e espirituosos. É autor de vários livros de ensaios, entre os quais se destacam: Brasil – Igreja contra Estado, O Caldeirão de Medéia, Corpo e Cristal: Marx Romântico, Silêncio e Ruído e Conservadorismo Romântico.

Problemas Brasileiros – Estamos assistindo a um renovado interesse pela filosofia. Os filósofos parecem estar na moda. A que se deve isso?
Roberto Romano – Acho que hoje se quer um espaço para pensar. Estamos enfrentando várias crises simultâneas, entre elas a da comunicação. Podemos ver dramas tremendos, as brigas do Islã com a civilização cristã que estão sendo retomadas, a oposição entre Oriente e Ocidente, lutas de classes, questões de direitos humanos, crises dos Estados nacionais. O mundo numa espécie de movimento de parto, que não se sabe se vai ser bem-sucedido... Quando houve a revolução da imprensa surgiu o fenômeno do pedantismo, um sujeito lia 10 mil livros e não sabia por que estava lendo. Hoje, com a internet, o empanturramento é muito maior. Mas ela nos fornece informações preciosas. Há sites lindos, bem-feitos, como o Perseus, que tem todos os filósofos gregos e autores latinos lincados – podemos resolver hoje em 15 minutos alguns problemas que antigamente um professor brasileiro levava 15 anos pesquisando em Londres. Por exemplo, você clica na palavra ousia de um texto platônico e é remetido para o sentido etimológico ou gramatical – mas isso não é a palavra ousia, a palavra ousia é uma reflexão sobre a permanência, sobre a estabilidade, pressupõe um pensamento, a função do pensamento. É para esse tipo de reflexão que as pessoas procuram os cursos de filosofia. Se a universidade não fornece isso, cai-se no autodidatismo, que já foi uma das pragas da filosofia anterior no Brasil. Por outro lado, não se quer mais que a filosofia dê respostas ao modo do século 19, receitas de boa sociedade, como no positivismo, no marxismo, ou receitas para o indivíduo, como no existencialismo. O professor não pode ser um burocrata do ensino, tem de retomar aquela função antiga de "mestre", o que ajuda o discípulo a procurar o seu próprio espaço de pensamento, que lhe dá uma possibilidade de degustação do pensamento.

PB – O que acha da reintrodução do ensino da filosofia no ensino médio?
Romano – Sou contra. Quer dizer: tudo depende da maneira de ensinar. Se o ensino for feito a partir de manuais de filosofia, pode matar o interesse, a pergunta, prefiro que se incentive o estudo da poesia, da literatura, da música, da matemática, enfim, das humanidades. Nos Estados Unidos foram feitas pesquisas sistemáticas muito sérias sobre isso. E há um professor, Matthew Lipman, que descobriu uma forma de despertar o interesse das crianças por essas coisas, o que é uma base, um requisito para o estudo posterior da filosofia. Aqui no Brasil, não adianta ir implantando reformas por decreto. Teremos professores capazes de despertar interesses verdadeiros nos alunos? Uma coisa muito grave acontece agora: por exemplo, você vai dar um curso sobre Spinoza, e lá pela terceira aula pára e pergunta: vocês leram a Bíblia? Não leram. Em um curso sobre Platão, você pergunta: leram a Ilíada e a Odisséia? Não leram. Em estética: o que viram de pintura, de artes plásticas? Nada. Esses são os alimentos protocolares para a filosofia. O sujeito que não tem imaginação poética, gosto pela arte, pela música, pela política, que não tem esse espírito formado, vai ser um decorador de textos ou um dogmático, uma pessoa fria e egoísta. Tenho muito medo que de repente se faça uma antifilosofia, nesses cursos dados sobre manuais, ou que ela vire mero doutrinarismo. Como no tempo em que era ensinada por padres ou juízes, era uma espécie de substituto da religião, da moral e cívica. A coitada da filosofia era a última coisa, você ia procurá-la nos movimentos políticos, com o Partido Comunista, ou na esquerda católica, era ali que se lia filosofia, não nos cursos.

PB – São conhecidas suas posições de crítica à universidade como um todo, no Brasil. O que está realmente acontecendo?
Romano – Temos assistido, na última década, a um verdadeiro "genocídio programado" do ensino universitário. Um descaso sistemático de nossos governantes, inclusive com restrição de verbas e desestímulo à pesquisa, um verdadeiro e constante "desmonte" de estruturas produtivas, uma burocratização que desvirtua o papel da universidade como possível e necessário centro de pesquisa e de saber. Esse modelo nos é imposto principalmente através da Faculdade de Educação. Um método que é uma espécie de "tecnologia do flanelódromo..." – isto é, do quadro-negro. Os professores de hoje só ensinam a ensinar, há regras que são absolutamente idiotas mas que devem ser tomadas como perfeitas. Por exemplo, a de que um bom professor não pode dar aula lendo o texto, tem de dominar a matéria, tem de fazer a apresentação no quadro-negro. Ora, isso é absolutamente contrário a toda matéria de reflexão. Se você prepara uma aula e quer falar é uma coisa, mas se quiser transmitir um conteúdo mais atualizado, mais elaborado, tem de ler textos.

PB – E no campo específico da filosofia?
Romano – Quando eu era estudante, pelo menos se estudava história da filosofia, íamos aprendendo sobre os pensamentos dos filósofos. Hoje há os compartimentos, há capítulos sobre filosofia moderna, sobre isso ou aquilo, é uma taxionomia do espírito, apresentada como se fosse filosofia. Perde-se todo o sentido erótico da filosofia, porque se lemos Platão, Spinoza, é porque temos prazer com isso... Com o tal do neoliberalismo, vamos enquadrar as instituições todas no sentido da rentabilidade, produção e tempo. Quem começou isso foi Margaret Thatcher, para tirar a autonomia que as universidades de Cambridge e Oxford tinham desde a Idade Média. No Brasil, levava-se muito tempo para fazer uma graduação, e mais ainda na pós. Na filosofia havia alunos que passavam oito, dez anos fazendo o mestrado, e na hora do caixão estavam acabando o doutorado... o rigor era demasiado. Na USP [Universidade de São Paulo] houve sempre uma idéia de "genialidade" obrigatória...

PB – E hoje, como são as diretrizes?
Romano – Estamos caindo no exagero oposto. No caso da filosofia, todas as medidas tomadas pelo CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] e MEC [Ministério da Educação] se destinaram a diminuir o tempo, e em vez de teses sobre temas considerados "árduos", começou-se a propor outras, sobre temas "viáveis". Em vez da ética de Spinoza, por exemplo, pequenos tratados dele ou pedaços, ou em vez do problema do conhecimento em Kant, o aluno estuda só uma parte da dialética transcendental. Estamos chegando ao absurdo de a tese de mestrado ter tempo determinado, e se o aluno passa de seis meses o programa é punido com diminuição de recursos – exige-se que a mercadoria seja entregue no prazo certo. É a tal da especialização. Estamos nos encaminhando rapidamente para formar escribas, ou aquilo que chamo de "filosofia-xerox", do tipo "eu apenas estudarei aquilo que está no texto".

PB – O professor universitário de hoje parece que não é mais um intelectual, não é alguém com quem se possam discutir questões do mundo...
Romano
– Justamente. Na linha da caricatura se diz muita verdade. Weber diz que o juiz moderno é uma máquina de refrigerantes: coloca-se uma moedinha e sai uma sentença. O ensino e a perspectiva da filosofia são mais ou menos essa maquininha, coloca-se uma moeda, seja ela o poder, a vaidade, o benefício ideológico, e sai o trabalho, com a garantia de ser isento, objetivo e elevado, o que é a base da massificação. O desaparecimento do intelectual é incontestável. Assistimos a uma burocratização do espírito. Boa parte das reuniões do departamento de filosofia é dedicada ao estudo das regras para aceitar alunos na pós-graduação, das regras para que o colega possa ter um ano sabático, regras que produzem outras regras que alimentam outras regras.

PB – Com a corrupção política, o cinismo, a impunidade toda que anda por aí, o Brasil atravessa hoje uma crise moral sem precedentes. Como poderemos sair dela?
Romano – Sinceramente não sei. Porque não depende da sociedade brasileira, vivemos numa crise cósmica, não é nem mundial. Temos culturas que notoriamente estão se digladiando, concorrendo pelas massas – o Islã cresce a olhos vistos e ao mesmo tempo vemos o rejuvenescimento das grandes agências ocidentais de fé, como a Igreja Católica, cada vez caminhando mais para um rigorismo absurdo. Basta pensar na quantidade de negações que a Igreja faz hoje da vida, aborto, homossexualidade, células-tronco, está se tornando novamente uma religião do não, quase como a religião que imperou a partir do Concílio de Trento, e com isso vai conseguindo agradar à multidão. Sim, porque esse é o escândalo do pensamento democrático: o grande número não gosta da democracia. É lamentável. Um filósofo jovem, Slavoj Zizek, tenta demonstrar que o controle das multidões se tornou pior do que no totalitarismo. Porque neste tínhamos um fenômeno físico das massas, que eram movidas por um discurso burocrático de um partido e pela força. Hoje, temos multidões virtuais que têm mais eficácia do ponto de vista da decisão política do que as multidões físicas. Por exemplo, nas campanhas eleitorais, você pega um sujeito como o Duda Mendonça, é uma mistura perfeita de sofista com diretor de cinema, aí aparece o fura-fila, o lulinha-paz-e-amor, aquela figura que responde a toda libido das estrelas de cinema, você aposta nele. É muito pouco a campanha crítica do Lula dizer que ele está ganhando porque comprou o pobre com o mensalão, é bem mais que isso, é esse encanto da sociologia de Weber, que não serve mais, é um carisma pré-fabricado. Olhe, estou como Diógenes, com uma lanterna à cata de uma saída.

PB – E nos países mais desenvolvidos, o que está acontecendo?
Romano
– Temos democracias com inspiração muito generosa, como a francesa, a inglesa, a norte-americana, que tiveram um momento muito bom de restauração, mas que se tornam cada vez mais formais diante da razão de Estado e da corrosão de qualquer fé e confiança pública. Vemos aumentar o segredo. No final do governo Clinton foram preparadas leis para diminuir o segredo e aumentar a transparência do Estado, mas o atual governo fez o contrário. Nos EUA hoje há concorrências, licitações secretas e corruptas, porque o mesmo general que é presidente de uma companhia interessada no Iraque dentro das forças armadas decide por si mesmo, escolhe a si mesmo e ninguém pode questionar, é um controle cada vez maior da cidadania por meio da espionagem. Quando se alcança esse ponto, francamente eu gostaria de chegar a alguma idéia, mas não tenho. Por exemplo, a questão dos direitos humanos parece consensual, todo mundo defende, mas, com a crise dos Estados nacionais, o aumento das corporações multinacionais e a carência de leis específicas, ela vai se tornando cada vez mais complexa.

PB – Há muita gente, mesmo nos círculos mais intelectuais, que defende o amoralismo para o Estado, a necessidade da política "de mãos sujas"... O que acha disso?
Romano – Nesse caso, a promoção da vontade de mandar, de ter poder, situada acima da capacidade de certos indivíduos. O que temos hoje é uma espécie de ventriloquismo do poder, que sempre esteve à cata dos que justificassem os seus atos, que tornassem palatáveis suas ações. Para o nazismo, esse foi um trabalho infernal de informação e desinformação de mentes. Para o stalinismo, sabemos o que custou produzir seus ventríloquos: campos de concentração, terror, processos de Moscou, etc. Afinal, você não faz um Jorge Amado com três cantigas, ele é uma obra-prima da produção de ventríloquos. Hoje é muito fácil para o poder encontrar essas pessoas, os candidatos a Maquiavel de substituição são muitos, grandes e pequenos intelectuais que aceitam o papel. E há aqueles que Sartre chama de ideólogos, os que apitam a regra e a fala do poder. Essa negação da moralidade e da ética não tem mediações. É o discurso do poder que surgiu do Estado absolutista com a concentração dos poderes na mão do grupo dirigente, com a temática do segredo. É muito fácil um intelectual defender uma atitude amoralista ou aética, porque ele não tem de pagar pela manutenção do segredo. Vejamos o mensalão: é um fato que, como todo segredo, é conhecidíssimo por todo mundo. Mas ninguém pode dizer que o presidente sabe, porque se ficar provado a oposição terá a necessidade de fazer o seu impeachment. É muito fácil a um intelectual fingir, ou fazer ouvidos moucos, ou dizer ao povo que não existe o segredo. Intelectuais que produziram sua própria fama no jogo do "eu te cito, tu me citas", "somos os maiores intelectuais do país"... Essa indústria da fama não opera sem financiamento, privado ou do governo. Então quando alguém diz que "suja a mão com aquilo", como aconteceu com Paulo Betti, está prestando um desserviço ao poderoso a quem serve, porque está mostrando o truque. Um pobre-diabo que diz uma coisa dessas não sabe o que vai acontecer com ele daqui a dez anos... talvez o que aconteceu com o pessoal que apoiava Stálin e depois se viu sentado nos julgamentos de Moscou, e o promotor dizia: "Você não vai falar mal do partido, você vai se declarar culpado mesmo sabendo que é inocente". Se a moral é tão ridícula, se as regras são assim, então estamos caminhando irremediavelmente para uma situação total de "homem lobo do homem". Para o fim de qualquer convívio humano.

PB – Qual a sua visão pessoal da vida?
Romano
– Tenho uma visão meio religiosa da vida, sou um cristão, não sou um filósofo puro. Como cristão, tenho pressupostos importantes. A história de Jó é muito importante, quem é justo, ou se preocupa em ser justo, fica solitário em relação aos outros homens e até mesmo a Deus. Jó pensou em pedir satisfação a Deus e ficou muito mal. A situação de quem se preocupa com a justiça, com a verdade e com a beleza é de solidão, é kafkiana, você não sabe quem está mandando, quem vai te julgar, quem é o senhor, você sofre um processo e não sabe nada. Em todas as situações dramáticas do século 20 tivemos partidos políticos que eram máquinas de transformação de homens em dejetos, em massa. Mas existem sujeitos que são duros de ser moídos. Platão falava do sujeito que é difícil de ser educado, ele encrua, a gente cozinha e ele fica duro. Então essas pessoas são importantes para a preservação da vida ética e moral, elas dizem não. A incapacidade de dobrar a cerviz é uma desgraça que coube a alguns – no caso de Jó foi uma desgraça, todos dizendo que ele era culpado, e ele não era, era justo. Não são só os indivíduos ditos "superiores" que agem assim. Porque não conhecemos o número exato de todos os que disseram não através dos tempos, e se alguma regra de moral resta é porque muitos tiveram essa atitude, nem todos abaixaram a cerviz. Em todos os movimentos, como no totalitarismo nazista, no stalinismo e na ditadura militar brasileira, tivemos resistentes. Estou lembrando da frase que vinha sempre no "Pasquim": "Eu preciso sobreviver, entende?" Poucos resistiram a essa lógica, mas muitos que resistiram e não sobreviveram ajudaram a sociedade a ter regras éticas.

PB – É conhecida e admirada a sua capacidade crítica, a sua coragem, a sua isenção...
Romano
– Não... Não sou isento. E não sou neutro. Há um dito de Weber: "Neutro é quem se decidiu pelo mais forte". Sou muitas vezes apaixonado e no calor da hora por vezes injusto, mas me parece que entre a perfeita justiça e a demissão, prefiro a injustiça. Porque, quando se é injusto, é possível pedir perdão, que é uma das características civilizatórias mais importantes. Quando se lavam as mãos, deixando o mais forte agir, não se pode pedir perdão. Venho de uma família de formação católica apostólica romana, de origem portuguesa. Minha avó, que tinha vocação para padre, colocou o Romano no nome do meu pai para homenagear a Igreja, mas fui criado como kardecista por meu avô, que cortou relações comigo por 15 anos quando "optei" pelo catolicismo. Só voltou a conversar comigo quando fui preso. Para mim sempre foi muito difícil aceitar posições preestabelecidas. Fui ser dominicano e me senti muito à vontade, porque naquele momento já se vivia uma situação de muita crítica dentro da própria Igreja. Formei-me em filosofia na USP e fiz meu doutorado em Paris. Depois, escrevi um livro sobre as relações entre a Igreja e o Estado que desagradou o centro, a direita, a esquerda e o alto da Igreja, me colocou mal com todos, tanto com Leonardo Boff como com dom Agnelo Rossi... Mas não faz mal: fui produzido um pouco nessa linha, um sujeito desagradável que diz coisas que nem todos querem ouvir...

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